Quem sabe um dia ao invés de meia dúzia de medalhas possamos nos orgulhar de termos milhões de crianças praticando esporte nas escolas…
Amigos do basquetebol
Toda vez que termina um ciclo Olímpico ouvimos sempre a mesma ladainha: vamos nos preparar para que nos próximos jogos aumentemos o número de medalhas.
E aí vem a pergunta: Querer é poder?
Claro que queremos ter um número significativo de medalhas. Mas o fato é: podemos tê-las?
Em um estudo* que aponta as principais características de países que obtém sucesso no cenário esportivo mundial, dois pontos encontram-se em destaque: a formação de treinadores e o incentivo à prática esportiva nas escolas.
Em nosso caso, é nítida a carência de bons treinadores nas bases em quase todos os esportes. E isto se deve ao tipo de formação que nossos estudantes têm, atualmente, nos cursos de graduação de Educação Física. Não se fala quase nada de esporte. As Escolas partiram para uma linha quase que exclusivamente teórica (e nada contra a teoria) e deixaram os esportes à deriva. Lembro que nos currículos dos cursos de graduação, pelo menos dois semestres eram reservados para cada esporte coletivo (principalmente basquetebol, handebol, voleibol e futebol). Atualmente, fala-se discretamente dessas atividades.
Isto se deveu ao movimento de criminalização do esporte que se desenvolveu na década de 90 por aqueles que chamo de “xiitias” da Educação Física que impuseram uma ideia que esporte era algo desnecessário e alienava as crianças. Engraçado que ninguém perguntou às crianças se elas gostavam ou não dos esportes em suas aulas de educação física.
Esses “iluminados” simplesmente ignoraram todo o valor da prática esportiva para o desenvolvimento de nossos jovens em todos os aspectos e provocaram uma revolução na formação dos docentes e, consequentemente, na dos jovens praticantes nas Escolas.
Aliado a esta nefasta interferência desses “iluminados” na nossa prática da atividade física e esportiva, observamos, no decorrer dos anos, o descaso com a educação e, por tabela, a educação física escolar que foi abandonada e relegada a um plano não condizente com a sua importância.
A consequência deste quadro é que deixamos de ter pessoas com boa formação para desenvolver o esporte em sua base e criamos uma geração de desinteressados pela prática esportiva que ficou cada vez mais elitizada, já que a escola, o maior espaço democrático para esta prática, não mais ofereceria esta oportunidade.
Então volto ao tema. Como podemos querer medalhas se o esporte em nosso país é relegado ao segundo, terceiro, quarto ou quinto plano?
Quais os programas de incentivo à prática esportiva escolar que temos (não os que estão colocados no papel como fórmulas milagrosas, mas os verdadeiros, os possíveis, os viáveis)?
Qual é a preocupação de nossos governantes em relação a esta importante arma de educação e desenvolvimento de nossos jovens?
Como se comportam as Escolas de Educação Física perante este quadro? Até quando elas continuarão ignorando o valor do Esporte para a sociedade e deixarão de oferecer a oportunidade de formação de valores para o desenvolvimento da prática esportiva?
É claro que vamos ganhar medalhas nos Jogos Olímpicos. Judô, natação, vôlei, iatismo, talvez atletismo e basquete. Mas é daí?
Isto é muito pouco frente ao problema crônico da falta de esporte nas escolas.
Quem sabe um dia ao invés de meia dúzia de medalhas possamos nos orgulhar de termos milhões de crianças praticando esporte nas escolas para que tenhamos mais atletas e, principalmente, mais gente saudável e usufruindo de um direito que é inerente ao desenvolvimento do ser humano.
* Veerle De Bosscher; Paul De Knop, Maarten van Bottenburg; Simon Shibli; Jerry Bingham (2009) Explaining international sporting success: An international comparison of elite sport systems and policies in six countries. Sport Management Review, n.12, p.113-136.





