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NBB Caixa

Lenda, ponto

30-04-2026 | 11:17
Por Marcius Azevedo

Da primeira temporada no NBB CAIXA à Last One, Shamell construiu uma trajetória de protagonismo, tornando-se um dos nomes que definem a identidade do basquete brasileiro

Há jogadores que passam. Há jogadores que ficam. E há aqueles que atravessam o tempo como se o próprio jogo fosse extensão de sua alma. Shamell Jermaine Stallworth nunca pertenceu apenas a um time, a uma cidade ou a uma temporada. Ele pertenceu ao basquete brasileiro.

Quando o NBB CAIXA ainda aprendia a existir, em 2008/09, ele já estava lá. Limeira não foi apenas o primeiro uniforme. Foi o ponto de partida de uma jornada que cresceria junto com a própria liga. Shamell chegou como estrangeiro e rapidamente se tornou linguagem comum dentro de quadra. Seu jogo falava por ele. Falava de leitura, de pausa, de decisão no tempo certo. Em um campeonato que buscava identidade, ele ajudou a desenhar contornos.

Shamell encerrou uma das trajetórias mais importantes dos basquete brasileiro. Foto: Matheus Maranhão/CAIXA/Brasília

O salto seguinte levou seu talento ao Pinheiros. Foram cinco temporadas em que o tempo pareceu se dobrar à sua capacidade de decidir. Em 2013, o continente conheceu aquilo que o Brasil já começava a entender. Campeão da Liga das Américas, MVP do Final Four, protagonista absoluto em um palco onde só os grandes se sustentam. Não foi apenas um título. Foi a afirmação de um jogador que sabia ocupar o centro do jogo sem jamais se perder nele.

Depois, Mogi das Cruzes. E ali a história ganhou outro peso. O que era desempenho virou pertencimento. O que era talento virou identidade. Shamell não foi apenas peça importante, foi referência emocional de um projeto que crescia. Vieram o Campeonato Paulista de 2016 e a Liga Sul-Americana do mesmo ano, campanhas que consolidaram o clube entre os protagonistas do país. Em 2017/18, a final do NBB CAIXA. A série escapou, mas a imagem permaneceu. Há trajetórias que não precisam de um último troféu para serem completas. Basta o caminho percorrido.

Shamell em sua primeira temporada no NBB CAIXA em 2008/09, com Limeira. Foto: Arquivo/LNB

O basquete brasileiro seguiu mudando, e Shamell seguiu sendo parte dessa mudança. No São Paulo, encontrou novamente o início de algo. Um projeto em construção que precisava de alguém que entendesse o jogo para além das quatro linhas. Liderou com ações, com decisões, com presença. Campeão paulista em 2021, campeão da Basketball Champions League Americas em 2021/22. Em meio a novas estruturas, novos elencos, novas pressões, ele manteve aquilo que sempre o definiu. Regularidade. Inteligência. Capacidade de decidir quando o jogo pedia mais.

O retorno a Mogi das Cruzes não foi apenas uma volta. Foi a confirmação de um vínculo que o tempo não desfaz. E então, Caxias do Sul Basquete. A temporada 2024/25 trouxe consigo não só mais minutos em quadra, mas também memória viva. Ao lado de Larry Taylor, reviveu uma parceria que já havia levado um time ao auge. Dois jogadores que entendem o jogo como poucos, conectados por algo que vai além da tática. Experiência compartilhada, leitura comum, respeito ao tempo e ao peso de cada decisão.

Shamell no Pinheiros, onde foi campeão da Liga das Américas e MVP do Final Four em 2013. Foto: Luiz Pires/LNB

Sua carreira nunca foi sobre excessos. Nunca foi sobre volume vazio. Foi sobre impacto. Sobre saber exatamente quando assumir, quando distribuir, quando transformar um ataque comum em algo definitivo. Shamell construiu sua trajetória como um artesão do jogo, lapidando cada posse como se fosse única. Em um basquete cada vez mais acelerado, ele mostrou que pensar ainda é uma das maiores virtudes.

Shamell escolheu permanecer no Caxias do Sul Basquete para mais um capítulo no NBB CAIXA 2025/26, consciente do peso que carregava. A Last One, como ele mesmo definiu, não foi apenas um rótulo, mas a tradução de um percurso que se aproximava do fim sem perder sua essência. Cada jogo ganhou outro significado, passou a soar como memória em construção, até que o último ato se apresentou no palco mais familiar: playoffs, um lugar que frequentou muitas vezes. Sem necessidade de anúncio grandioso, sem ruptura com aquilo que sempre o definiu. Apenas o jogo, em sua forma mais pura, conduzindo uma despedida que foi imensa no significado.

Shamell se tornou ídolo em Mogi, onde teve o número 24 aposentado. Foto: Luiz Pires/LNB

Porque o que se encerra não é apenas uma carreira. É um ciclo que acompanhou a própria evolução do basquete brasileiro. Shamell esteve presente em diferentes fases, estilos, gerações. Adaptou-se sem perder essência. Competiu sem perder identidade. Venceu sem perder a medida.

Seu legado não se limita às taças que levantou ou aos números que acumulou. Está na forma como elevou o nível de quem esteve ao seu redor. Nos ginásios, aprenderam a reconhecer o momento em que a bola estava em suas mãos. Nos jovens que cresceram entendendo que o jogo também é leitura, paciência e precisão.

Shamell em ação pelo São Paulo, quando foi importante para o crescimento do projeto. Foto: Bruno Lorenzo/LNB

Quando a bola subir e ele não estiver mais em quadra, ainda assim haverá traços dele em cada detalhe. Na escolha do arremesso certo. No passe que quebra a defesa no instante exato. No controle do ritmo quando tudo parece acelerar. Shamell não apenas atravessou o NBB CAIXA. Ele ajudou a dar sentido ao que o NBB CAIXA se tornou.

E, por isso, mesmo quando o jogo segue sem sua presença, o maior cestinha da história continua dentro dele. Porque há jogadores que terminam suas carreiras. E há aqueles que permanecem no próprio tecido do basquete.

O NBB CAIXA é uma competição organizada pela Liga Nacional de Basquete, com patrocínio máster das Loterias, Caixa Econômica, Governo do Brasil, parceria do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), chancela da Confederação Brasileira de Basketball, bola oficial Molten, marca oficial Kappa, patrocínio Cruzeiro do Sul Virtual e Eurofarma e parcerias oficiais IMG Arena, Genius Sports, EY e NBA.