HOJE
Experiência marcante
Por Marcius Azevedo
Em meio a temperaturas de até -40ºC, José Neto conduz o Selenge Bodons a um vice-campeonato inédito na Mongólia, fala da evolução da liga mongol e da relação com ex-NBA
Enfrentar o frio extremo de Ulaanbaatar, considerada a capital mais fria do mundo, com temperaturas que variam entre -20 ºC e -40 ºC durante três meses, foi mais do que um desafio climático para José Neto. Foi o pano de fundo de uma das experiências mais singulares de sua carreira e também de uma campanha histórica. Maior campeão do NBB CAIXA ao lado de Helinho Garcia, com quatro títulos, o treinador levou o Selenge Bodons ao inédito vice-campeonato na Liga Nacional da Mongólia, transformando uma missão inicial modesta em um projeto competitivo que ultrapassou expectativas e consolidou o clube em um novo patamar.

José Neto levou o Selenge Bodons ao inédito vice-campeonato da Liga Nacional da Mongólia. Foto: Arquivo Pessoal
“Fiquei extremamente feliz por fazer parte dessa campanha histórica do Bodons no basquete do país. Pela primeira vez, a equipe chegou a uma final da Liga Nacional e também conquistou, de forma inédita, a classificação para uma competição internacional, o continental asiático”, contou. O ponto de partida, no entanto, era outro. “Quando cheguei, a missão inicial era manter a equipe na primeira divisão e buscar uma vaga nos playoffs. O fato de termos alcançado a final representa uma conquista muito significativa, principalmente pelo nível dos adversários que enfrentamos ao longo do caminho”, completou.
A trajetória até a decisão ajuda a dimensionar o tamanho do feito. Nas quartas de final, vitória por 4 a 1 sobre o Miners, que José Neto classifica como uma das equipes mais consistentes da temporada. Na semifinal, um roteiro ainda mais dramático. “Superamos o Apes, que havia terminado a fase classificatória na primeira posição. Foi uma série extremamente desafiadora. Estávamos perdendo por 3 a 2 e conseguimos a virada para 4 a 3, garantindo a vaga na final no jogo 7.” Já na decisão, o Bodons encontrou o Broncos, atual bicampeão nacional e campeão asiático. “Mesmo sem o título, considero que fizemos uma temporada de altíssimo nível. O vice-campeonato representa um passo muito importante no processo de crescimento e consolidação do Bodons no cenário nacional.”

José Neto com DeMarcus Cousins, ex-astro da NBA, seu jogador na Mongólia. Foto: Arquivo Pessoal
Dentro dessa construção, um nome chamou atenção. DeMarcus Cousins. Ex-All-Star da NBA, campeão olímpico e mundial com os Estados Unidos, o pivô trouxe peso técnico e simbólico ao projeto. “Conviver com um jogador desse calibre é sempre uma experiência enriquecedora, tanto do ponto de vista profissional quanto pessoal. Ele já conhecia o contexto da liga, pois havia disputado os playoffs da temporada anterior”, afirmou. Em quadra, impacto direto. “Agregou qualidade técnica, experiência e competitividade. Fora de quadra, contribuiu com liderança e profissionalismo. Foi uma experiência extremamente valiosa dirigir um atleta com esse nível de vivência e exigência competitiva”, afirmou.
A estrutura da liga mongol também quebrou expectativas. “Ao chegar, fui positivamente surpreendido com o nível de organização da liga e a estrutura dos clubes”, comentou Neto. A competição conta com 10 equipes na primeira divisão, além de uma segunda liga estruturada com oito equipes e um modelo semelhante no feminino. O ambiente internacionalizado é outro diferencial. “Na temporada em que participei, havia sete treinadores estrangeiros, de diferentes nacionalidades, o que eleva o nível técnico e tático da competição.” Com restrições ao número de estrangeiros, os clubes são seletivos e buscam jogadores de alto nível, muitos com passagem pela NBA ou pelo basquete europeu. “A principal diferença em relação a outras ligas está na combinação entre organização, investimento e crescimento do interesse do público.”
Esse interesse, aliás, é um dos motores do crescimento local. “Vejo a liga em um momento claro de crescimento. O basquete é o esporte coletivo de maior visibilidade no país”, disse. A força do 3×3, com destaque no ranking da FIBA, e a transmissão de todos os jogos ao vivo contribuem para ampliar o alcance. “A estrutura dos jogos é moderna, com forte apelo de entretenimento, e as arenas costumam estar cheias.” Ainda assim, Neto aponta o principal desafio para um salto internacional mais consistente. “O desenvolvimento dos jogadores locais, aliado à continuidade dos investimentos.”
Fora das quadras, o impacto cultural foi tão marcante quanto o esportivo. “O maior desafio esteve fora de quadra, principalmente em função do clima. Ulaanbaatar é considerada a capital mais fria do mundo, com temperaturas que chegam a variar entre -20ºC e -40ºC durante vários meses.” A adaptação exigiu mudanças profundas na rotina, mas também trouxe crescimento. “Essa experiência contribuiu muito para o meu crescimento pessoal e profissional. Viver em um ambiente tão diferente exigiu adaptação, flexibilidade e uma liderança ainda mais consciente, baseada no entendimento do contexto e das pessoas.” A estrutura da cidade e do clube, por outro lado, ajudou a suavizar o processo. “Toda a infraestrutura da cidade é preparada para essas condições, o que ameniza o impacto no dia a dia.”

José Neto ao lado da família na Mongólia, com temperaturas que variam entre -20ºC e -40ºC durante três meses. Foto: Arquivo Pessoal
Depois de passagens por diferentes continentes, África, Ásia e seleções, Neto amplia o repertório sem perder o eixo. “Essa experiência na Mongólia agregou muito à minha carreira, principalmente porque reforça a ideia de que o desenvolvimento profissional não depende apenas do nível da competição, mas da forma como lidamos com os desafios do dia a dia.” O vice-campeonato, nesse contexto, tem peso simbólico. “Chegar novamente a uma final de campeonato nacional, em um país diferente, reforça minha convicção de que estou preparado para novos desafios.”
Com uma trajetória construída sobre resultados e adaptação, o treinador continua em movimento. “Sigo motivado e preparado para o próximo desafio, com a certeza de que cada experiência contribui para minha evolução como treinador e líder”, avisou. Em um país onde o frio extremo molda a rotina, José Neto encontrou mais do que um desafio. Encontrou uma nova forma de reafirmar sua identidade competitiva.
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