HOJE
Força materna
Por Marcius Azevedo
Mãe de Gui e Edu Santos, Lucineide transforma o basquete em herança de família e se torna o porto seguro dos filhos entre desafios, distâncias e conquistas da NBA ao NBB CAIXA
Antes da melhor temporada na NBA ou da participação pela primeira vez nos Playoffs do NBB CAIXA, existia uma mãe segurando firme a mão de dois meninos. Existia uma mulher ensinando, todos os dias, que sonhos não sobrevivem apenas de talento. Precisam de amor, de disciplina, de humildade e de alguém que permaneça ao lado quando o mundo parece silencioso demais.
Hoje, um dos filhos defende o Golden State Warriors e carrega o Brasil na principal liga de basquete do planeta. O outro, aos 16 anos, já vive os primeiros passos no time profissional do Pinheiros, enfrentando desafios que parecem grandes demais para sua idade. Mas, antes de Gui Santos e Edu Santos, ou melhor, Dudu, serem promessas, destaques ou nomes conhecidos do basquete brasileiro, eles foram apenas filhos observando o exemplo dentro de casa. E esse exemplo sempre foi Lucineide Santos.

Lucineide ao lado dos filhos Edu e Gui Santos. Foto: Ricardo Bufolin/ECP
O basquete entrou na vida da família muito antes da fama, das manchetes ou dos aplausos. Foi o esporte que aproximou Lucineide e Deivisson, que construiu a história da família e que transformou quadras em uma extensão do lar.
“Hoje o meu maior orgulho é poder vê-los decolando, conquistando tudo que eles sempre quiseram, e sempre foi uma coisa muito natural. Eu nunca os forcei a ser atletas ou se profissionalizarem nisso. Sempre foi uma coisa muito leve. Eu sempre gostei muito de esportes. A única coisa que eu sempre trouxe para a vida deles é para que gostassem de esporte, gostassem de se movimentar, independentemente da modalidade. E, para minha felicidade, eles escolheram o basquete, que é o esporte que eu mais amo nesse mundo”, contou.
A paixão pelo jogo sempre esteve ali. Nas arquibancadas, nas viagens, nos treinos, nas conversas depois das partidas. Lucineide viveu o basquete de perto. Tentou seguir carreira, saiu de casa em Brasília ainda muito jovem para buscar espaço em São Paulo e conheceu, na prática, o tamanho das dificuldades. Ela sabe o quanto o caminho exige. Talvez por isso tenha escolhido ensinar algo ainda mais importante do que vencer.
“Sempre mostrei para eles a realidade, a nossa realidade. Sempre estar com os pés no chão, saber como tratar as pessoas, nunca perder principalmente a humildade. Por mais que alcancemos os nossos objetivos, temos que sempre saber de onde viemos. E isso eu sempre passei para eles. São ótimas pessoas e eu sempre falava: eu não quero só criar vocês, eu quero criar vocês para serem homens de verdade. Ter responsabilidade, educação, saber tratar as pessoas.”
A trajetória dos dois irmãos aconteceu em tempos diferentes, mas Lucineide enxerga as mesmas dores, inseguranças e obstáculos reaparecendo diante dos olhos. Hoje, enquanto Gui tenta conquistar cada vez mais espaço na NBA, Edu vive os primeiros impactos da vida profissional em meio aos Playoffs do NBB CAIXA. E, entre um oceano e outro, a presença da mãe continua sendo abrigo.
“Hoje a realidade do Gui é bem diferente da realidade do Dudu, só que é como se eu estivesse vivendo a mesma história em momentos diferentes. Existe uma diferença de sete anos entre eles. Tudo que eu passei com o Gui, hoje estou passando com o Dudu, só que de uma maneira diferente. Como eu vi as coisas que o Gui teve de passar para conquistar o que está conquistando hoje, eu consigo lidar melhor com o Dudu, mostrar para ele como é a realidade para superar obstáculos e dificuldades, porque não é fácil. Independentemente disso, cada um é cada um. Eles têm a mesma trajetória, só que são pessoas diferentes, personalidades diferentes. O Gui tem um jeito de lidar com algumas situações, o Dudu tem outro, mas eu estou ali sempre conversando, apoiando, tentando mostrar o melhor caminho”, afirmou Lucineide.
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A mãe que hoje vê um filho na NBA também conhece os bastidores que ninguém vê. Conhece o silêncio das noites difíceis, a frustração de quem trabalha e não recebe oportunidade, o peso das críticas e a solidão que às vezes acompanha um atleta. Foi assim com Gui. Antes dos minutos importantes, dos jogos decisivos e do reconhecimento dentro do Golden State Warriors, houve um período duro. Um período em que o brasileiro quase não entrava em quadra.
Mas Lucineide nunca deixou o filho esquecer quem ele era. “Um dos principais desafios foi sempre mostrar para eles qual era o principal objetivo, onde eles queriam chegar. E era nisso que precisavam focar. Não era no que as pessoas falavam sobre eles, criticando, falando coisas que poderiam deixá-los para baixo. Eu sempre falava: o quanto vocês treinam não é pelo time que, às vezes, não está te dando oportunidade, não é pelo técnico que te critica, mas sim por vocês. O objetivo sempre foi aquilo que vocês querem conquistar. É olhar para frente e trabalhar para chegar nesse objetivo.”
E Gui ouviu. “É surpreendente ver a superação do Gui. Ele saiu de uma situação na qual nem entrava em quadra para jogar. Conforme as coisas foram acontecendo durante a temporada, alguns jogadores já não estavam atuando mais e ele sempre ali trabalhando, sempre focado. Ele sempre teve essa noção de que o treinamento era para ele, independentemente se o time estava dando oportunidade ou não. Ele estava sempre trabalhando, pensando que, no momento em que tivesse a oportunidade de entrar em quadra, ele ia fazer. E foi isso que ele fez”, relembrou.
Mesmo distante fisicamente, Gui nunca deixou de procurar a voz da mãe. “Desde que eu cheguei na NBA, de tudo que eu vivi, com certeza, o momento que eu mais senti, quando as coisas não estavam fáceis, quando estava tudo difícil, quando eu não estava jogando, ela sempre foi uma pessoa muito presente para mim. Eu sempre ligava para ela. Tem até várias histórias que eu conto que eu ligava para ela aqui e, quando eu ia treinar, ia arremessar sozinho, deixava o celular lá no canto e ficava conversando com ela para esquecer dos problemas, para esquecer das coisas que não estavam indo pelo caminho certo. Foram nesses momentos que eu mais senti a presença dela do meu lado, quando eu mais precisava”, revelou o único jogador brasileiro na NBA.
A mesma voz que atravessa oceanos também acompanha Edu no início da caminhada. Aos 16 anos, o caçula da família já experimenta a intensidade do basquete profissional. Os jogos grandes, a pressão, a responsabilidade precoce. E, assim como aconteceu com o irmão mais velho, existe alguém esperando do outro lado do telefone. “Minha mãe é muito especial para mim, porque ela está junto em todos os momentos. Tanto nos momentos bons quanto nos momentos ruins. Sempre que eu chego em casa, eu ligo para ela e conversamos. Ela consegue me acalmar, conversa muito comigo. A minha mãe me ajuda muito nesse início de profissional, porque é uma coisa totalmente nova. Você está subindo, e ter uma pessoa que te apoia e te ajuda junto com você é sempre muito bom”, disse o ala-pivô do Pinheiros.
Lucineide sorri ao perceber que, apesar dos caminhos diferentes, os dois filhos carregam algo em comum: a capacidade de continuar. Continuar treinando. Continuar acreditando. Continuar sonhando. Talvez porque tenham crescido vendo a própria mãe fazer exatamente isso.
“Ao mesmo tempo, eu vi o Dudu seguindo os mesmos passos. Com 16 anos, já atuando no adulto do Pinheiros, agora jogando os playoffs. Para mim, é a realização de um sonho ver meus filhos se desenvolvendo, crescendo cada vez mais. Também é a realização de um sonho meu. Eu fui jogadora, tentei me profissionalizar, saí de casa com 15 anos para jogar em São Paulo e sei que é muito difícil. Não consegui me profissionalizar, mas, em compensação, Deus me deu meu marido, que acompanhei por vários anos no profissional, e agora meus dois filhos seguindo o mesmo caminho. Eu me realizo todos os dias por meio deles”, afirmou.
No fundo, o maior sonho de Lucineide nem envolve troféus, contratos ou estatísticas. Ela sonha com um momento simples. Dois irmãos dividindo a mesma quadra. Vestindo a mesma camisa. Representando o mesmo país. “Hoje o meu maior sonho é poder ver meus filhos jogarem juntos, que seja numa seleção brasileira, que seja num time na NBA. Hoje o maior desejo é esse, além de vê-los decolando e realizando sonhos, é poder vê-los jogarem juntos.”
Talvez esse dia ainda chegue. Mas, enquanto ele não acontece, Lucineide já construiu algo muito maior do que qualquer resultado. Construiu uma família em que o amor nunca ficou no banco. Uma família em que a distância nunca impediu o cuidado. É uma história que prova que, às vezes, a força mais importante por trás de um atleta não aparece nas estatísticas. Ela atende por mãe.
O NBB CAIXA é uma competição organizada pela Liga Nacional de Basquete, com patrocínio máster das Loterias, Caixa Econômica, Governo do Brasil, parceria do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), chancela da Confederação Brasileira de Basketball, bola oficial Molten, marca oficial Kappa, patrocínio Cruzeiro do Sul Virtual e Eurofarma e parcerias oficiais IMG Arena, Genius Sports, EY e NBA.
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