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Minha quadra, minha vida

30-12-2025 | 04:16
Por Marcius Azevedo

Em mais um capítulo da série Minha quadra, minha vida, conheça José Aparecido dos Santos, o "Zé Negão", que desde 1993 trabalha no Ginásio Geodésico, casa do Basket Osasco

No Ginásio Geodésico, em Osasco, não é difícil entender quem manda. Basta prestar atenção nas palavras que ecoam todos os dias, antes, durante e depois dos jogos: “Zé!”, “Ô, Zé?”, “Cadê o Zé?”, “Zé, você está aqui?”. Nada acontece no Ninho da Coruja sem que alguém procure por ele. José Aparecido dos Santos, ou simplesmente “Zé Negão”, é mais do que o mordomo do Basket Osasco. É presença, memória, cuidado. É parte do chão onde a bola quica.

Aos 72 anos, ele olha para o Geodésico e não vê apenas arquibancadas, vestiários ou linhas pintadas. “O Geodésico significa uma vida”, resume, com a naturalidade de quem fala de casa. “Passo mais horas do meu dia aqui do que na minha própria casa.” E não é força de expressão. Quando o ginásio foi inaugurado, em 1993, “Zé Negão” já estava ali, funcionário da Secretaria de Esportes, massagista, dando suporte ao basquete feminino, ao judô, ao futsal, ao atletismo. “Vi muitas obras, pois o terreno era gigante, tinha um terrão, e o ginásio, inaugurado para ser mais um importante espaço esportivo na cidade.”

Zé em ação no Geodésico em dia de jogo do Basket Osasco pelo NBB CAIXA. Foto: Bruno Ulivieri/Basket Osasco

Ele viu o Geodésico nascer. Viu o tempo passar. Viu dificuldades, improvisos, soluções “no jeito”. E viu, sobretudo, o basquete crescer. “Vi o Geodésico surgir e me tornei mordomo do basquete com a retomada do projeto adulto masculino e a criação da AERCO, em 2012.” Do que era no passado para o que é hoje, a transformação salta aos olhos, e ao coração. “Mudou muito e mudou para melhor.”

Funcionário público, ícone do esporte osasquense, “Zé Negão” teve convites para sair. Corinthians, São Paulo. Mas nunca cogitou deixar a cidade. Osasco sempre foi escolha, nunca circunstância. E talvez por isso a emoção escape quando ele fala do presente. “Estou com 72 anos e, sinceramente, não imaginei viver o que estamos vivendo.” O Basket Osasco na elite do basquete brasileiro é algo que ele não ousou sonhar. “Para mim o time estar no NBB CAIXA é algo incrível, que jamais sonhei.” Ainda assim, o discurso é de quem sabe onde pisa: “Agora, o mais importante é nos manter entre os gigantes, porque o NBB CAIXA é um dos campeonatos mais fortes do mundo.”

Se o Geodésico guarda milhares de histórias, uma delas ganhou contornos eternos recentemente. “Vivi muita coisa legal, em Campeonatos Paulistas, Jogos Regionais, Abertos do Interior”, relembrou. Mas nenhuma como a Liga Ouro. “Mesmo com o título lá em Itatiaiuçu-MG, foi aqui no Geodésico que reagimos.” A série começou 2 a 0 para o Cruzeiro Basquete, mas algo mudou dentro daquele ginásio. “Saímos de 2 x 0 para empatar a série melhor de cinco e fechar lá em Minas.” O motivo? Ele não hesita: “Nunca vi uma atmosfera como naqueles dois jogos da final, com casa cheia.” Para “Zé Negão”, a virada começou ali. “Se não tivesse aquela atmosfera aqui, não conseguiríamos. Os dois jogos no Geodésico representaram a virada de chave.”

Zé foi chamado pelo capitão Hátila Passos para levantar junto a taça da Liga Ouro. Foto: Bruno Ulivieri/Basket Osasco

Nem só de tensão vivem as quadras. Quando fala das lembranças divertidas, o sorriso aparece fácil. “Sem dúvida, os desfiles pelas ruas da cidade após as conquistas dos títulos.” A carreata, a chegada ao ginásio, o povo nas ruas. “A sensação foi incrível.” Há também o orgulho institucional, de ver a cidade abraçando o time. “Contar com a presença do prefeito Gerson Pessoa nos jogos, sempre sendo gentil, nos incentivando, é outra coisa que fica para sempre.” Para ele, isso diz muito. “Ele veste a camisa do time, vibra junto com a equipe.”

A rotina explica por que o Geodésico é extensão da própria vida. “Na maioria dos dias, chego entre 8h e 8h30 e não sei a hora que vou embora.” Já dormiu ali quando era mais novo. “Hoje está mais difícil, mas se precisar…”, ele ri. Abre o ginásio, confere vestiários, ajeita roupas, separa material. Na sua sala, há de tudo um pouco, e um pouco de tudo. “Material de limpeza, bola, camisas, abraçadeira, tesoura, esparadrapo, cola…” Quem precisa, sabe onde encontrar. “Quando qualquer pessoa precisa de alguma coisa, é só pedir.”

Matheus Weber, Tarek e Elvis com Zé no Media Day do Basket Osasco. Foto: Bruno Ulivieri/Basket Osasco

Ao longo de décadas, “Zé Negão” viu gerações passarem. Ainda no ginásio José Liberatti, antes mesmo do Geodésico existir, deu água em quadra para João Ricardo, hoje diretor executivo, e para Rosinaldo, atual supervisor. “Depois acompanhei a transição de carreira deles.” No Ninho da Coruja, perdeu a conta de quantos jogadores passaram. Alguns ficaram para sempre. “O Lupa, o André Góes, que colocava a bola debaixo do braço e resolvia, o argentino Cafferata.” Do elenco atual, não faz distinção. “Gosto de todos, pois todos eles me respeitam muito.” E isso, para ele, é fundamental. “Sempre falo no pé do ouvido deles, incentivo, apoio.”

O carinho vem de volta, dos atletas, da torcida, dos meninos da base. “Eles são o nosso futuro.” E talvez seja isso que explique por que, no Geodésico, sempre que algo acontece, alguém chama por ele. Porque “Zé Negão” não cuida apenas do ginásio. Ele cuida de histórias. E a dele está escrita, para sempre, no chão da quadra.

O NBB CAIXA é uma competição organizada pela Liga Nacional de Basquete, com patrocínio máster das Loterias, Caixa Econômica, Governo Federal, parceria do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), chancela da Confederação Brasileira de Basketball, bola oficial Molten, marca oficial Kappa, patrocínio Cruzeiro do Sul Virtual e parcerias oficiais IMG Arena, Genius Sports, EY e NBA.