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Mestre tático

28-04-2026 | 10:55
Por Marcius Azevedo

Campeão da Copa América de 2009, Moncho Monsalve morre aos 81 anos e deixa legado marcado pela visão coletiva do jogo, após papel importante na reconstrução da seleção brasileira

A morte de Moncho Monsalve nesta terça-feira (28/04) encerra um capítulo importante de conexão entre o basquete europeu e o brasileiro. Aos 81 anos, o treinador espanhol deixa um legado que vai além de resultados, marcado pela formação, pela troca de conhecimento e por uma visão pedagógica do jogo que influenciou gerações dentro e fora das quadras.

Antes de se consolidar como técnico, Monsalve teve passagem relevante pelo Real Madrid, onde conquistou títulos nacionais e continentais em um dos períodos mais dominantes do clube entre 1963 e 1967, atuando 65 vezes pela seleção espanhola. A carreira como jogador, no entanto, foi abreviada por problemas médicos nos seus joelhos, o que antecipou uma transição precoce para a prancheta e acabou definindo sua contribuição mais duradoura ao esporte.

Moncho Monsalve na cerimônia de entrada no Hall da Fama do Basquete Espanhol em 2024. Foto: FEB

Como treinador, construiu uma trajetória extensa na Espanha, dirigindo diversas equipes, como Barcelona, Málaga e Múrcia, sempre com forte inclinação para o ensino do jogo. Mais do que um comandante de vestiário, Monsalve era reconhecido como um professor, alguém que valorizava o entendimento coletivo, a leitura tática e o desenvolvimento dos atletas dentro de um sistema estruturado.

Foi justamente essa bagagem que o levou ao comando da seleção brasileira masculina em um momento de transição. Em 2008, o Brasil buscava reorganização e novos caminhos e encontrou no espanhol uma figura capaz de trazer método e repertório internacional. Mesmo sem alcançar a classificação para Pequim no Pré-Olímpico daquele ano, o trabalho ganhou consistência ao longo do ciclo.

O ponto alto veio em 2009, com a conquista da Copa América, em uma equipe que tinha Anderson Varejão, Tiago Splitter, Leandrinho Barbosa, Marcelinho Huertas e Marcelinho Machado. O título recolocou o Brasil no mapa competitivo e garantiu vaga no Mundial seguinte, funcionando como um marco simbólico de retomada. Sob seu comando, a seleção brasileira apresentou sinais de identidade, com maior disciplina tática e uma abordagem mais coletiva, características associadas ao basquete europeu.

Monsalve permaneceu à frente da equipe até o início de 2010, quando deu lugar a Rubén Magnano, que daria sequência ao processo. Ainda assim, sua passagem foi determinante para pavimentar o caminho da reconstrução, em um período em que o basquete brasileiro buscava se reposicionar internacionalmente. O espanhol também foi técnico das seleções do Marrocos e da República Dominicana.

Nos anos seguintes, o espanhol manteve sua atuação como formador e referência teórica do jogo, ligado a cursos, clínicas e programas de desenvolvimento de treinadores. Em 2024, foi reconhecido com a entrada no Hall da Fama do basquete espanhol, coroando uma carreira dedicada ao estudo e à difusão do esporte.

A despedida de Moncho Monsalve não representa apenas a perda de um técnico vitorioso, mas de um pensador do basquete. Alguém que enxergava o jogo como linguagem coletiva, construída no detalhe, na disciplina e no entendimento, valores que continuam ecoando em cada equipe e profissional impactado por sua trajetória.