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O Brabo da vida

16-01-2026 | 04:14
Por Marcius Azevedo

Nossa Terra Tem Basquete: Alex Garcia abre o coração para contar como o basquete, a infância dura e a força da família moldaram o homem e o atleta que marcaram gerações

O basquete não entrou na vida de Alex Garcia como um jogo. Entrou como salvação. Como caminho. Como resposta. “Basquete é minha vida”, disse, sem metáfora. “Mudou minha vida. Transformou minha vida.” Mudou tudo. Deu profissão, identidade, dignidade. Deu família. A família que hoje o cobra da arquibancada, que vibra, que puxa a orelha quando precisa. A mesma família que o lembra, toda vez que ele pisa numa quadra, de onde tudo começou.

Porque cada quadra carrega um passado inteiro. Cada bola que quica traz junto a infância inteira. Desde o primeiro passo no basquete, ainda menino, até o dia em que vestiu, já profissional, a camisa do COC Ribeirão Preto. Por isso, ele joga até hoje, aos 45 anos. Joga por paixão. “É um prazer que não dá para explicar”, disse ele. “É tudo na minha vida.”

A imagem do Brabo, conhecido pelo Brasil, é a do jogador intenso, agressivo, incansável. O defensor que se joga no chão, que não aceita derrota, que incomoda qualquer adversário. Mas antes desse Alex existir, havia um menino em Orlândia, interior de São Paulo, criado pela mãe, dividindo um cômodo com mais dois irmãos e um irmã, aprendendo cedo que a vida não dá escolha. Ela exige atitude.

O pai saiu de casa quando ele tinha sete anos. Ficou a mãe, sozinha, com os quatro filhos. E ficou a necessidade de ajudar. Alex trabalhou cedo. Na roça, colhendo café. Saía de casa de madrugada, pegava ônibus, caminhão, o que tivesse. A melhor parte do dia era às 11h, a hora do rango. Marmita pesada, arroz e feijão, sustento de verdade.

Depois veio o trabalho em casa de família. Limpar quintal, ir à feira, fazer o que precisava. Na sequência, o supermercado, primeiro empacotando compras, depois entregando pela cidade inteira. Ele tinha 11, 12 anos. E gostava. Porque ali já existia algo que nunca mais sairia dele. Movimento, entrega, responsabilidade.

O basquete apareceu quando ele voltou para a escola, entre os 12 e 13 anos. Veio simples, na educação física. Veio puxado pela técnica da cidade, que levou primeiro o irmão e Alex foi junto. Dali em diante, tudo começou a mudar. Quando a mãe perguntou se era isso que eles queriam, o basquete, a resposta foi direta. Sim. “Então vai. Que eu seguro a bronca.”

E segurou. Segurou de um jeito que marcou para sempre. Houve um tempo em que a mãe varria rua em Orlândia. Ganhava dois pães com manteiga por dia. E não comia. Guardava. Guardava porque sabia que os filhos voltariam do ginásio com fome. Às vezes, ela desmaiava de fraqueza no meio do trabalho. Mas o pão estava lá, separado para eles.

Esse passado nunca saiu de Alex. Entrou dentro da quadra com ele. Virou combustível. “Tudo que eu passei na infância, eu ponho dentro de quadra.”

Foi assim em Assis, quando teve a primeira experiência como atleta federado. Foi assim em São José do Rio Preto, quando saiu de casa com uma mochila simples. Uma calça jeans, uma bermuda, um tênis, duas camisetas, duas cuecas e um chinelo. Foi assim quando chegou ao COC Ribeirão Preto, cercado de veteranos, aprendendo que alguém precisava fazer o trabalho sujo. E ele fez. Defesa. Contato. Sacrifício. “No ataque, eu ia para enterrar tudo”, ele ri. “Fase boa.”

Alex foi moldado por treinadores duros, exigentes. Gente que ensinou que talento ajuda, mas não sustenta carreira. O que sustenta é trabalho. Por isso, ele repete, quase como missão. Acreditar no sonho. Mesmo sem talento, é possível. Com treino, dedicação, versatilidade. Desde que se esteja disposto a abdicar. E vale a pena.

Em quadra, existe o Alex Garcia. Intenso. Chato. Incômodo. O jogador que se mata pelo jogo. Fora dela existe o Alex Ribeiro. Caseiro. Tranquilo. Marido. Pai de duas filhas. Um cara que valoriza domingos em casa, futebol na TV, almoço em família. Um homem que sabe o quanto é raro estar presente, porque sabe o que é não ter laço, não ter memória.

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O pai adoeceu cedo, teve Alzheimer, faleceu novo. Eles quase não tiveram tempo juntos. Isso virou lição. Alex faz questão de ter momentos só com as filhas. Conversar. Criar memória. “É a melhor coisa do mundo”, disse, emocionado.

O Brabo chora. Chora lembrando da roça. Da marmita. Do pão guardado. Da mãe forte. “Se eu não tivesse passado pelo que passei, eu não seria o Alex de hoje”, afirmou. “Olha o Brabo chorando, vou virar de costas porque ninguém nunca viu o Brabo chorando. Esse é o Alex Ribeiro.”

E talvez aí esteja o ponto central de tudo. O basquete não é apenas um esporte na vida de Alex Garcia. Foi consequência de uma formação dura, real, diária. Uma vida em que, desde os oito anos, cada dia exigia matar um leão. Ele dorme tranquilo até hoje, mesmo nos piores dias. Porque sabe que amanhã vai levantar e tentar de novo. Sempre.

Esse é o verdadeiro Brabo. Não o da quadra. O da vida.

O NBB CAIXA é uma competição organizada pela Liga Nacional de Basquete, com patrocínio máster das Loterias, Caixa Econômica, Governo Federal, parceria do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), chancela da Confederação Brasileira de Basketball, bola oficial Molten, marca oficial Kappa, patrocínio Cruzeiro do Sul Virtual e parcerias oficiais IMG Arena, Genius Sports, EY e NBA.