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Rômulo Mendonça:As crônicas deum narrador

23-05-2020 | 12:51
Por Rodrigo Bussula

Rômulo Mendonça foi o convidado desta sexta-feira (22/05) da live #BasqueteEmCasa no Instagram do NBB: conheça a trajetória do narrador

“BRUTALLLL”, “Facínora”, “Aqui não, queridinha”, “Elaaaaa disseeeee adeuusssss”, “O CAOSSSS”, “Aonde está seu Deus?”, “Umba Umba UmbaÊ”. Se você acompanha esportes americanos na ESPN já deve saber quem é o dono desses bordões de sucesso: o narrador Rômulo Mendonça.

Tido como um dos principais narradores brasileiros em esportes americanos, Rômulo foi o convidado da live #BasqueteEmCasa desta sexta-feira (22/05), no Instagram oficial do NBB (@nbb).

Em um bate papo divertido e leve, o narrador, que por ofício conta a história dos jogos através das palavras, contou desta vez um pouco das suas crônicas no jogo da vida, desde o primeiro contato com o jornalismo ao sonho de narrar uma final de NBA. Então, confere aí algumas das histórias do homem que alegra as suas noites de NBA, NBB e tantos outros esportes!

O menino e uma bola laranja

Nascido em 1982, em Divinópolis, cidade do Estado de Minas Gerais, desde cedo Rômulo cultivou um amor por esporte, inicialmente com o futebol e torcendo pelo Atlético-MG, seu time do coração.

Mas a história do narrador com a bola laranja começa um pouco depois, já em meados de 1991. Ainda pequeno, entre os oito e os nove anos de idade, o menino teve o seu primeiro contato com o esporte da bola laranja através do Pan de Havana, em 1991.

“No final dos anos 80 eu acompanhei mais futebol, mas a partir do final de 1991 e o início de 1992 comecei a me interessar mais por basquete. Uma das coisas que me atraiu na época, em meados de 1991, foi o Pan de Havana com o basquete feminino campeão. Lembro muito bem daquele domingo vendo a final entre Brasil e Cuba, a conquista foi maravilhosa”, disse o narrador.

Rômulo Mendonça é narrador de esportes americanos dos canais ESPN (Marcus Steinmeyer/ Reprodução)

Já no ano seguinte, em 1992, o contato com o basquete se intensificou. Ali, Rômulo conta que começou a ter mais contato com a NBA e, consequentemente mais tarde, viria a também ter contato com o Dream Team USA nas Olímpiadas de Barcelona em 1992. Deste momento em diante, o narrador da ESPN percebeu o amor que sentia pelo basquete e como ele se aflorava dia após dia.

“Me lembro d’eu criança, nas finais de 1991 entre Lakers e Bulls. Na época não me interessava muito pelo que estava passando. Ironicamente, no ano seguinte, na final entre Chicago e Portland eu já estava viciado em basquete. Foi isso, metade de 91, 91/92 já teve a temporada da NBA, Olimpíada de Barcelona, o Dream Team. Essa foi a ordem”, disse o narrador, que completou:

“Depois de Barcelona, o Basquete passou a ser o esporte que tenho mais interesse, mais até que o futebol. No futebol passei mais a sofrer torcendo pelo Atlético do que acompanhando o esporte em si. Com o basquete não, passei a ver tudo, principalmente depois desta época”, afirmou.

 

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Cheguei atrasado para Knicks e Bulls hoje no Garden. Um atraso de 30 anos me disseram. #NBA #TaçaZion

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Mas ao contrário do que muitos pensam, o sonho de se tornar narrador ainda nem passava pela cabeça do mineiro. Bom, isso é mais para frente na história.

É isso que eu quero: decisões na faculdade

A faculdade é um momento de virada na vida de muitos e com Rômulo não foi diferente. Cursando Jornalismo na PUC-BH, o narrador teve seu primeiro contato com as mais diversas formas de se fazer jornalismo logo no início da faculdade.

“Quando eu via um jogo de basquete em 1991, 1992, não tinha uma visão de pensar que queria virar narrador. Nunca passou isso pela minha cabeça. Eu via e gostava do jogo, das histórias e personagens envolvidos, de tudo que a partida e o esporte envolvem. Sempre ouvi muito rádio, até pela influência do meu pai. Essa coisa de rádio, tv, sempre esteve na minha vida, ainda mais por causa do esporte. Mas só comecei a cogitar mesmo que isso poderia ser uma boa na faculdade”, afirmou.

O interesse de Rômulo pelo telejornalismo começou ainda na faculdade (Ali KaraKas/Divulgação)

E foi nas aulas de radiojornalismo e telejornalismo que Rômulo se encontrou. Para ele, foi claro que sua pré-disposição estava ali e não no trabalho com jornalismo impresso, que era o sonho de muitos na época.

“Na faculdade comecei a perceber, assim que tive aulas de telejornalismo e radiojornalismo, que me dava melhor com isso do que com jornalismo impresso. Tudo fez parte de uma autocrítica, de ver em quais pontos eu era realmente bom. No radiojornalismo e na tv eu era melhor, então comecei a identificar isso e ir selecionando. O interesse por narração mesmo foi só mais para frente, mas na faculdade vi que tv e rádio era o mais confortável para mim”, reiterou.

A superação e o sonho

O sonho de todo narrador é poder trabalhar em um canal de relevância nacional, assim como a ESPN. Esse era o sonho de Rômulo Mendonça, que mesmo tendo entrado na emissora somente em 2011, ficou muito próximo de ser realizado ainda no início de 2009.

“Fiz um teste para a ESPN no final de 2008 e, no mês seguinte, em 2009, fui chamado. Mas no início de fevereiro recebi uma mensagem dizendo que infelizmente iriam congelar todas as contratações pela crise econômica internacional. Já me sentia dentro da ESPN em 2009, mas só fui chamado mesmo em 2011”, disse.

O narrador só conseguiu efetivamente entrar na ESPN em 2011 (Divulgação/ESPN)

O que viria a ser a realização de um sonho ficou para depois, mas se engana quem acha que o narrador viu a situação somente de forma negativa. Tendo passado por um momento difícil em 2008, com o AVC da sua namorada Fabiana, hoje esposa, o narrador não estava no seu melhor momento quando o assunto era o foco na carreira profissional.

“O ano de 2008 foi muito difícil para minha esposa porque ela teve um AVC em Agosto daquele ano. Em Setembro, Outubro, Novembro eu vivia no hospital e foi muito complicado. Bom, fui fazer esse teste para a ESPN em Dezembro, mas não estava acompanhando nada de esporte. Até fiquei surpreso quando fui aprovado, já que eu não estava bem emocionalmente, além de ficar pensando na recuperação da Fabiana (esposa). Quando cancelaram, se por um lado eu lamentei, também pensei que no futuro, que se aparecesse outra oportunidade eu não perderia”, afirmou.

Uns anos depois, já com a esposa recuperada e em sua melhor forma, o narrador iniciou seus trabalhos na ESPN. Em 2015 Rômulo finalmente se casou e, logo no ano seguinte, começou a morar com sua esposa, que veio de Minas Gerais, em São Paulo.

Um bordão é uma marca

Quando se pensa em Rômulo Mendonça também vem, automaticamente, a sua mente os icónicos bordões do narrador dos canais ESPN. E isso não é por acaso.

Muito antenado na cultura pop desde sempre, Rômulo encontrou uma maneira de fazer algo diferente nas transmissões esportivas do que tradicionalmente é feito. Segundo ele, a vontade de ser criativo era algo que já trazia consigo desde sempre, desde os tempos como narrador de futebol.

“Sempre pensei que quando tivesse oportunidade de fazer transmissões eu gostaria de criar expressões diferentes. Não só personagens, mas jogadas também. Teve uma época que narrei por um período jogos do Atlético e do Cruzeiro para rádios do interior. Eu gostava de brincar com as coisas. Por exemplo, quando tinha um gol de um time do fora contra o Atlético ou contra o Cruzeiro eu gritava: ‘Maldição!’ (risos). Eu gostava de criar essas coisas diferentes, mas com uma conexão do que acontece no jogo”, disse.

Rômulo se destaca, especialmente, com seus bordões de sucesso (Arte/

Com as transmissões dos esportes americanos na ESPN, especialmente com a NBA, isso não foi diferente. Bordões como ‘Papai Lebrão roubou meu coração’, ou ‘Mensageiro do caosss’ e tantos outros ficaram e ainda ficam na boca do povo.

“O primeiro com mais impacto foi o ‘Mensageiro do CAOS’. Mas aí eu fui criando variações. A do ‘Papai Lebrão’ pegou demais, chegou a ter repercussão na ESPN americana. Legendaram a narração. Foi uma coisa que pensei que nunca ia conseguir – e acho que nunca mais vou conseguir também”, afirmou Rômulo, que reiterou:

“Alguns são mais para humor, outros para definir situações, outros para características de jogadores. Cada um tem um objetivo e mesmo parecendo às vezes aleatório não é. Então quando o Kawhi nas finais teve uma sequência extraordinária na reta final de um jogo e eu falei ‘ele é um déspota que cria as suas próprias leis’, isso era a definição para mim do que ele estava fazendo dentro da quadra. Para cada expressão um sentido vem com ele. Pode ter certeza”, finalizou.

Vôlei e NBA Finals: entenda a relação

Um dos sonhos de Rômulo Mendonça, ainda mais com o amor desenvolvido pelo basquete, era narrar in loco as finais da NBA. Bom, estamos em 2020 e isso já aconteceu não só uma, mas duas vezes. Só que antes de te contar essa história vamos voltar para 2016, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Antes do convite para narrar as Olimpíadas, Rômulo já era consolidado nos esportes americanos na ESPN (Divulgação/ESPN)

Consolidado como uma figura conhecida no meio de esportes americanos, Rômulo recebeu e aceitou o desafio de narrar os jogos da Seleção Brasileira de vôlei, masculina e feminina, in loco nas Olímpiadas do Rio.

“O vôlei foi muito interessante. Assim, com NBA na ESPN comecei a ter mais oportunidade mesmo em 2015, que era um período que a emissora tinha poucas transmissões por semanas. Hoje tem mais, felizmente. Ah, também já narrava uma vez por semana NFL e NBL, que também tem um público fiel. Para o público de esporte americano o meu nome já era consolidado. Mas a grande questão é quando chegou o momento de fazer as Olimpíadas, narrando o vôlei que tinha possibilidade de medalha, como aconteceu com o masculino, e ainda sendo no Brasil, foi algo mágico”, que completou:

“Então juntou tudo. Era um público diferente do que eu estava acostumado, era mais amplo e mais diversificado. Mas a sensação de narrar a Seleção Brasileira, no Brasil, de um esporte tradicional sendo ainda em uma competição internacional na tela da ESPN é algo que transcende’’, disse.

Como se chama essa jogadora mesmo?

A oportunidade era de ouro, mas tinha um ponto importante nessa história toda: Rômulo nunca tinha narrado vôlei e agora faria isso in loco, no Maracanãzinho, e ao vivo em rede nacional. Dedicado como é por natureza, o narrador logo se debruçou para pegar todas as expressões, jeitos, nomes, posições sobre os participantes, tanto do masculino quanto do feminino. Tudo foi absorvido em pouco mais de um mês.

“Vôlei é um esporte difícil de narrar. Para narrar bem você tem que narrar muito. É um esporte que para um iniciante, por exemplo, o desafio é ainda maior se você narrar da cabine, vendo a mesma imagem que o telespectador tem. É muito difícil porque é um esporte que te pede velocidade. Se você não consegue identificar rápido quem está tocando na bola e passando você se perde na ação. Então estar in loco me facilitou muito, porque ampliou meu ângulo de visão e me facilitou muito neste sentido”, afirmou.

Rômulo narrou os jogos do vôlei nas Olimpíadas do Rio em 2016 (Divulgação/ESPN)

Dentre os principais desafios neste período, decorar os nomes de jogadoras/jogadores foi um dos mais difíceis. O maior exemplo dessa luta, e dedicação e vontade de aprender, foi quando o narrador viu que seu primeiro jogo nas Olimpíadas seria entre China e Coreia.

“Quando olhei a escala, isso com uma certa antecedência,  e vi que meu primeiro jogo era esse pensei: ‘minha mãe do céu’. Porque no período que comecei a estudar o meu grande desafio era memorizar as jogadoras. Agora não lembro, mas na época estudei tanto que se me perguntassem eu sabia o nome de todas as jogadoras e o número que elas usavam. Decorei tudo”, afirmou o narrador, que completou:

“Lembro que na sexta-feira à noite, na véspera do jogo, fui comer algo com o Maurício Jaú e passamos algumas informações sobre o jogo, nesse falei para ele a escalação dos times de cor. Ele ficou chocado que eu tinha decorado (risos). Quando chegou na hora de China e Coreia eu conseguir narrar cada toque de cada jogadora, desde o primeiro set. Ali eu pensei que meu trabalho surtiria efeito. Ganhei confiança e as coisas ficaram mais fáceis”, reiterou.

O trabalho deu tão certo que o narrador conseguiu, além de narrar o esporte que outrora nem tanto contato tinha, criar bordões em meio as partidas.

“Por exemplo, quando teve o jogo do Brasil no feminino contra o Japão eu falei: ‘vai caçar Pokémon em Osasco’. Na época tinha a moda de caçar Pokémon e no mesmo jogo eu lancei o bordão do ‘Ragatanga’, que nas redes sociais estourou. O público começou a acompanhar intensamente e foi inacreditável. Na época a Olimpíada fazia a # oficial de cada esporte, independente do canal. Se na época você colocasse voleibol na internet era algo incrível. Sei que a audiência na TV aberta é muito maior, é óbvio. Mas quanto a acompanhamento de rede social, uns 80% de citações eram relacionadas a nossa transmissão na ESPN. Foi uma loucura isso. Não era da Globo, era da ESPN. Nesse momento percebi as proporções que aquilo estava tomando”, finalizou.

Reconhecimento e NBA Finals

Após todo o trabalho ao longo dos anos, além da ótima cobertura nas Olimpíadas, a recompensa veio: Rômulo Mendonça iria finalmente cobrir as finais da NBA in loco.

“Foi na época que o diretor da ESPN era o João Palomino. Ele me chamou e me disse, não lembro com todas as palavras: ‘você tem feito um trabalho sensacional, mas temos uma dívida com você que precisa ser paga, por isso você irá cobrir as finais da NBA in loco’. Fiquei emocionado, mas eu estava me dedicando tanto no trabalho, dois anos antes tinha feito as Olimpíadas in loco, mas enfim, para mim foi algo natural diante do meu trabalho. Pelo que eu estava fazendo senti que seria algo natural pelo meu profissionalismo”, disse.

 

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Por que você me deixa tão solto? E se eu me interessar por alguuuéééémmmm ????? NBA Finals! Jogo 2 AO VIVO às 21h na ESPN! #NBAnaESPN

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Realizando um sonho de menino, Rômulo se viu dentro de ginásios superlotados, com os principais jogadores do mundo dentro de quadra e com ele narrando tudo aquilo in loco, perto da quadra. Mesmo emocionado e em êxtase pela experiência, o narrador ressaltou que o foco principal era o profissionalismo e que não havia espaço para tietagem.

“Quando cheguei lá consegui fazer isso, ter esse profissionalismo. Ok, é uma maravilha estar aqui, mas devo ser profissional e não ficar como uma tiete louca, principalmente com jogadores que acompanhei nos anos 90 e que hoje trabalham como analistas. Vi muitos deles lá. Consegui fazer essa separação durante as coberturas pelas cidades que passei. Ano passado foi em Oakland a final e lembro do Isiah Thomas passar do meu lado e pensei: ‘que loucura!’. Como isso é importante, simbólico, até de uma forma lúdica, para minha infância/adolescência”, finalizou.

‘Se eu conseguir isso estarei feliz’

Amante de esportes americanos, Rômulo Mendonça sonha em olhar para trás no futuro e ver tudo que construiu. Dentre estes sonhos, está realizar mais coberturas de NBA in loco, assim como de Super Bowl e, também, de Olimpíadas no exterior in loco.

“Essa questão dos direitos de transmissão de Olimpíada, como é para a NBA e para NFL, vai e vem. Então gostaria de chegar daqui 25 anos, olhar para trás e ver que narrei muitas finais de NBA in loco, narrei alguns Super Bowl’s e narrei também Olimpíadas no exterior in loco. Meus objetivos são esse trio. Se eu conseguir isso estarei feliz”, finalizou.