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NBA

Território inédito

15-04-2026 | 01:39
Por Marcius Azevedo

Tiago Splitter transforma o Portland Trail Blazers em equipe de playoffs e, sustentado por identidade e consistência, estabelece um novo patamar para a presença brasileira na NBA

O basquete brasileiro ganha mais um marco histórico com Tiago Splitter, e desta vez o significado do feito ultrapassa o resultado imediato para se transformar em algo mais duradouro, quase simbólico, dentro da NBA. Ao conduzir o Portland Trail Blazers aos playoffs com uma vitória sobre o Phoenix Suns no Play-in após uma campanha de 42 vitórias e 40 derrotas, ele não apenas amplia uma trajetória já consagrada como jogador campeão, mas redesenha o horizonte possível para treinadores brasileiros na liga, abrindo caminhos onde antes havia apenas expectativa.

A classificação não nasce de um jogo isolado, mas de uma travessia que começou ao assumir como treinador principal com o afastado de Chauncey Billups. Uma temporada feita de curvas, de noites incertas, de peças ausentes e respostas improvisadas. Portland foi, em muitos momentos, um time em construção diante do próprio espelho, tentando entender o que poderia ser. E encontrou essa resposta não na ausência de erros, mas na permanência. “Isso significa muito para esse grupo. Eles passaram por muita coisa durante a temporada, altos e baixos, lesões… e permaneceram juntos”, disse Splitter.

Tiago Splitter levou o Portland Trail Blazers aos playoffs da NBA. Foto: Bruce Ely / Trail Blazers

Esse senso de permanência virou linguagem dentro de quadra. O time deixou de ser fragmento para se tornar fluxo, uma ideia que se move de mão em mão, de posse em posse, sem a necessidade de um dono fixo. “Não é só um jogador. Diferentes caras apareceram em diferentes momentos. É isso que esse time tem sido durante toda a temporada”, afirmou o treinador.

Há algo de profundamente humano nessa construção, a compreensão de que o coletivo não apaga o individual, mas o potencializa, como vozes distintas que encontram harmonia. Em uma liga em que o talento é regra, competir se torna escolha, quase um ato de identidade. “Eles competem. Essa é a identidade. Não importa o que aconteça no jogo, eles continuam competindo”, definiu Splitter, em palavras que soam simples, mas carregam o peso de quem entende que, no fim, o jogo também é resistência.

O próximo capítulo carrega um simbolismo inevitável. Do outro lado estará o San Antonio Spurs, cenário de um passado que ajudou a moldar o presente. Foi ali que Splitter aprendeu a linguagem do jogo coletivo, o valor do passe a mais, da leitura precisa, defesa forte, do detalhe que sustenta o todo. Agora, ele retorna não mais como peça de um sistema, mas como o arquiteto de outro, levando consigo princípios que atravessam o tempo e encontram novas formas de existir. “Vai ser um grande desafio. Eles são um grande time, muito bem treinado. Vamos precisar estar prontos.”

 

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A dimensão histórica do feito se fortalece justamente por essa continuidade. Splitter não chega aos playoffs como acaso, mas como consequência de um caminho coerente, em que cada passo parece dialogar com o anterior. Primeiro brasileiro campeão da NBA como jogador, primeiro a assumir o comando técnico de uma equipe na liga, e agora o primeiro a levá-la à pós-temporada, ele constrói uma trajetória que deixa de ser apenas pioneira para se tornar narrativa, uma história que se escreve não em saltos, mas em progressão.

“É um momento especial para mim, para o Brasil. Representar o basquete brasileiro nessa plataforma que é a NBA é um orgulho enorme. Muita gente me ligando, mandando mensagem, me pedindo para continuar representando o Brasil, para seguir firme. Foi uma caminhada longa para chegar até aqui, mas, como eu falei, orgulho de poder representar nossas cores”, afirmou o treinador.

Splitter conduz o Portland a um território onde o jogo ganha densidade, onde cada posse carrega significado e cada escolha ecoa mais alto. E faz isso com um time que reflete sua essência, competitivo, resiliente, coletivo. Para o basquete brasileiro, é um avanço histórico. Para o treinador, é apenas mais uma forma de continuar indo além, como sempre fez, mesmo quando ainda não havia caminho.